Projeto gratuito impactou cerca de 330 pessoas com oficinas para diferentes gerações, ações educativas e registros da presença negra e indígena no território
Durante seis meses, moradores de diferentes gerações de Porto de Cima, em Morretes, compartilharam conhecimentos, aprenderam novas linguagens e voltaram o olhar para as histórias do próprio território. Realizado entre fevereiro e agosto de 2026, o projeto Porto de Cima Cultural impactou cerca de 330 pessoas por meio de dez oficinas culturais semanais gratuitas destinadas a crianças, adolescentes, jovens e adultos, além de ações voltadas à memória, à educação antirracista e à valorização das culturas negra e indígena.
A primeira edição foi encerrada durante o Festival Marumbi, realizado nos dias 22 e 23 de agosto, na praça de Porto de Cima. A programação reuniu apresentações, exposições, roda de conversa e uma mostra dos resultados construídos pelos participantes ao longo dos seis meses.
As atividades regulares envolveram teatro, breaking, desenho, música, construção de instrumentos percussivos com materiais alternativos, educação ambiental, turismo de base comunitária, produção de eventos e Língua Brasileira de Sinais (Libras). Cada oficina contou com 24 encontros, realizados no Barracão São Sebastião, espaço com acessibilidade arquitetônica e comunicação inclusiva.
Produtora executiva e professora de teatro do projeto, Kamylla Paola dos Santos destaca que a proposta foi pensada para ir além do acesso às atividades culturais. “As atividades foram pensadas não apenas para o desenvolvimento cultural, mas também como ferramentas que podem contribuir para a geração de renda dentro da própria comunidade”, explica.
Segundo ela, outro eixo fundamental foi reconhecer e dar visibilidade às raízes do território. “Outro foco muito importante do projeto foi trazer luz à presença negra e indígena no Porto de Cima. Este é um território marcadamente negro e indígena, mas ainda se fala e se escreve muito pouco sobre essa história. Então, buscamos também afirmar essa presença e levá-la para dentro das escolas”, afirma Kamylla.
Memória que permanece no território
A valorização da memória local esteve presente tanto nas oficinas quanto nos registros produzidos pelo projeto. Moradores foram convidados a compartilhar histórias familiares, saberes tradicionais e suas relações com Porto de Cima e com a região de Morretes.
Entre eles está Alvina dos Santos Souza, cuja trajetória familiar está ligada à agricultura e à produção artesanal de farinha de mandioca. A prática atravessa gerações.
“Essa história vem do tempo da minha avó. Ela fazia farinha e nós participávamos com ela, porque a família toda trabalhava na roça. Depois que a minha avó faleceu, eu continuei trabalhando na roça e fazendo farinha. Desde que eu nasci, aquela fábrica já existia, então isso faz parte da história da minha família e da minha vida”, relata.
Para Alvina, ver essa memória registrada e compartilhada com outras pessoas deu uma nova dimensão a uma história que, até então, permanecia principalmente dentro da família.
“O projeto Porto de Cima Cultural resgatou essa história. Eles foram até lá, fizeram as gravações e agora estão mostrando para todo mundo, para que mais pessoas possam conhecer”, diz.
O conhecimento sobre o território também ganhou novas possibilidades a partir das atividades de turismo de base comunitária. Gilberto dos Santos Gonçalves, o Giba, morador da região e conhecedor das trilhas e montanhas de Morretes, conta que o curso acrescentou informações que pretende compartilhar com outras pessoas.





“Aprendi bastante coisa que eu não sabia, principalmente histórias antigas, do tempo da minha avó e do meu avô. Foi muito conhecimento sobre a nossa região, a nossa cultura e o nosso território. Tudo isso que eu aprendi aqui, vou passar para frente, para as outras pessoas que vierem conhecer esses lugares”, afirma.
Um “tesouro” descoberto pela comunidade
Para Cristiane da Silva, moradora de Porto de Cima, a dimensão do projeto também foi sendo descoberta ao longo dos seis meses. Ela participou das oficinas de Libras, educação ambiental, desenho e turismo de base comunitária.
Foi justamente esta última, sobre a qual inicialmente sabia pouco, que acabou se tornando uma de suas experiências mais marcantes.
“No começo, eu nem sabia direito o que seria o turismo de base comunitária. Acabei me inscrevendo e foi justamente a oficina que eu mais amei. Foi quando começamos a trabalhar com as memórias, a resgatar histórias de Porto de Cima, fotos antigas e coisas que já não estavam sendo contadas. Isso era algo que eu sempre quis fazer”, conta.
Cristiane relata que se emocionou em diferentes momentos ao entrar em contato com histórias e fotografias antigas da comunidade.
“Porto de Cima é o meu paraíso, é o meu mundo. Então, tudo o que chega aqui para melhorar o lugar, incentivar as pessoas e movimentar a comunidade, eu quero participar. A gente precisa de mais projetos assim”, afirma. “Para mim, o projeto foi como um tesouro escondido que foi sendo descoberto aos poucos”, completa.
Formação também chegou às escolas
Além das oficinas regulares, o Porto de Cima Cultural promoveu ações direcionadas à rede pública de ensino de Morretes. A programação incluiu encontros de Letramento Racial para Educadores, com discussões sobre práticas antirracistas no cotidiano pedagógico e a aplicação das Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008, que estabelecem a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena.
Como contrapartida social, o projeto também promoveu sessões gratuitas de contação de histórias afro-indígenas nas escolas do bairro, com acessibilidade em Libras.
O artista, historiador e pesquisador Marcel Malê trabalhou histórias relacionadas a personalidades de Porto de Cima. A cacique Mbyá-Guarani Juliana Kerexu também participou das ações, reforçando a presença e a memória indígena em um território historicamente relacionado aos povos Guarani.
As atividades dialogaram com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e buscaram aproximar cultura, memória, identidade e educação.
Libras a partir das vivências da comunidade
Uma das formações realizadas ao longo dos seis meses foi a oficina de Libras, conduzida pelo professor Nathan Sales. As aulas partiram dos interesses e das experiências dos próprios participantes para aproximar o aprendizado da língua do cotidiano da comunidade.
“Cada turma nova também representa uma oportunidade de aprendizado. São pessoas diferentes, outras perspectivas e perguntas que muitas vezes nos levam a pesquisar e aprender coisas novas. Então, estar aqui foi uma troca muito rica”, conta Nathan.
Ao final da formação, segundo o professor, os participantes já conseguiam estabelecer formas básicas de comunicação em Libras e demonstravam interesse em continuar aprendendo.
“Fico muito feliz e orgulhoso em ver o resultado. Ao final do curso, os alunos já conseguiam se comunicar em Libras, construir diálogos básicos e, principalmente, demonstraram muito interesse pela língua”, destaca.
A conclusão da oficina resultou em um vídeo construído pelos próprios alunos. Primeiro, a história foi roteirizada em Libras e, posteriormente, traduzida para o português. O conteúdo partiu das vivências, memórias e relações dos participantes com Porto de Cima.
“O resultado foi uma história muito bonita, criada e apresentada em Libras pelos próprios alunos. Fico muito emocionado e feliz por ter participado desse projeto e por acompanhar tudo o que eles conseguiram construir ao longo desse período”, afirma Nathan.
Novos ritmos e novas experiências
Entre as atividades voltadas às crianças esteve a formação musical que resultou no Lata Afro Groove, bloco criado a partir da oficina de construção de instrumentos percussivos.
Ayele Porã Poty participou das atividades e da apresentação realizada no encerramento. Para ela, os meses de aprendizado significaram também o contato com novos ritmos.
“Eu gostei muito de participar das oficinas e do bloco afro. Foi bem legal e divertido. Eu aprendi muitos ritmos diferentes. O que eu mais gostei foi de aprender a música junto com o ritmo”, conta.
A apresentação do Lata Afro Groove foi uma das atrações da mostra de encerramento do Porto de Cima Cultural. A programação também apresentou o vídeo produzido pela turma de Libras e trabalhos desenvolvidos nas oficinas de desenho e turismo de base comunitária, além de promover uma roda de conversa com moradores e participantes.
Registros para além dos seis meses
Parte do trabalho desenvolvido permanece como registro da história e das experiências reunidas ao longo da primeira edição. A equipe produziu vídeos documentais sobre o processo e um catálogo digital dedicado a espaços e personalidades negras e indígenas de Porto de Cima e de outras regiões de Morretes.
Para Kamylla, o encerramento representa tanto a conclusão de uma etapa quanto a expectativa de continuidade das ações culturais construídas junto à comunidade.
“Queremos voltar com novas ações e novos projetos, cada vez mais construídos com a participação das pessoas que vivem no Porto de Cima, inclusive na escolha das oficinas e das atividades que façam sentido para a comunidade”, conclui.
O Porto de Cima Cultural foi aprovado pela Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, do Ministério da Cultura – Governo Federal, por meio do Edital Viva Cultura.











